Thais Stagni


Último post do Antes da Formatura
Para quem não sabe, a minha mãe me teve aos 17 anos. Ia fazer 18. Fazendo as contas aqui, ela foi uma daquelas garotas burras que, no dia dos namorados, decidiu que estava na hora de transar e que ter 16 anos já era ser “grandinha” pra saber o que é bom ou não pra ela. Quando eu conto isso para as pessoas, costumo fingir que não ligo muito, que está tudo bem e que esse fato não afetou muito a minha vida. A verdade é que me afeta tanto que eu não consigo falar sobre isso sem chorar.
O fato de a minha mãe ter me tido nova não tem mais muita diferença agora. Eu já tenho 20 anos de idade, ela evoluiu social, profissionalmente e como pessoa também, então tecnicamente, tudo terminou bem. O problema é que os distúrbios psicológicos que eu criei quando era pequena não se curaram tão bem quanto o resto das coisas que a gente viveu, porque a gente nunca passou por algo traumático financeira ou socialmente. A gente sempre teve como pagar as contas, minha mãe sempre me colocou nas melhores escolas de São Paulo e eu sempre fui superprotegida.
Mas o medo de verdade, o que eu mais pensava, era o seguinte: não gosto de dar trabalho. Certa vez li uma matéria que saiu no jornal sobre mães que foram teenage moms na década 1990, e a minha mãe estava na capa da matéria (juro, eu quase chorei quando li aquilo). Na reportagem, ela dizia que deixou de fazer tudo o que ela pretendia na vida dela só pra poder cuidar de mim. Isso me abalou de uma maneira sem igual.
O que eu mais gosto na vida é poder dizer que eu estou correndo atrás dos meus sonhos, mas eu fui responsável por impedir a minha mãe de correr atrás dos sonhos dela. Agora que eu já cresci ela já realizou alguns deles, mas ela perdeu o tempo e a juventude que ela tinha. Por minha causa.
Então eu tenho dois medos que originam todos os outros que assombram a minha vida atualmente: o primeiro eu não vou contar, não é hora para isso, mas o segundo é o medo de ser um peso na vida dos outros. Então eu evito gastar dinheiro, odeio o fato de a minha mãe pagar a minha faculdade, odeio quando minha avó me dá presentes a toa, odeio ganhar presentes a toa (porque sei que a pessoa está gastando dinheiro por minha causa e ela não deveria), odeio quando eu fico doente e as pessoas gastam dinheiro comprando remédios e me levando em médicos que o convênio não cobre. Odeio ser um peso na vida dos outros.
Por isso eu odeio ficar doente. Porque as pessoas deixam de sair e se divertir para cuidar de mim, que fico doente o tempo inteiro. Por isso eu odeio quando as pessoas tentam me convencer a não dividir a conta, ou a me dar um presente sem ser um momento especial. Eu odeio ser um peso. Eu gosto de ser invisível. Independente. Não só financeiramente. Eu gosto de imaginar que ninguém precisa parar a vida deles por alguém como eu.
É insuportável para mim ouvir a minha mãe me perguntando sobre o meu médico e quanto ela vai ter que depositar para ele, ou quanto ela vai gastar em remédios para mim. É insuportável ver o boleto bancário da faculdade chegando em casa e eu tirar um sete numa prova que a minha mãe pode eventualmente encontrar no meu quarto. É insuportável ficar doente e ver todo mundo para o que eles estiverem fazendo para cuidar de mim.
Só de pensar no quanto eu interfiro na vida das pessoas e fico impedindo elas de terem uma vida melhor, eu já começo a chorar (como estou agora). Eu sei que no fim das contas tudo ficou bem e a minha mãe acabou fazendo o que ela queria, mas ela perdeu tempo da vida dela que ela nunca mais vai recuperar por minha causa, e eu não quero que isso aconteça com as outras pessoas. EU não quero que as pessoas parem de viver algo que nunca mais vai voltar com alguém que nunca vai se curar. Que sempre vai ter rinite, dor de cabeça, ser desastrada e por causa disso sempre tropeçar, se machucar como se fosse uma boneca de porcelana. Eu não quero isso.
Eu prefiro que me deixem no museu e vão viver a vida.
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